Nesta 2ª parte da entrevista o Prof. Doutor Xavier Melo explorou a influência que o Exercício Físico tem na 3ª idade, nomeadamente no que diz respeito à sua capacidade em reverter certos aspetos do envelhecimento celular.
Formação Clínica das Conchas - Cada vez mais se fala em dar “vida aos anos”. Qual a influência que o Exercício Físico pode ter nesta afirmação?
Xavier Melo - Os benefícios do exercício no combate aos riscos associados com o envelhecimento, tanto em doenças como em incapacidades, são indiscutíveis. O treino aeróbio aumenta a capacidade oxidativa das enzimas mitocondriais, concomitantemente com melhorias na sensibilidade à insulina. O treino de força muscular reverte a sarcopenia e declínios associados à idade na expressão génica de cadeia pesada de miosina e na taxa de síntese de proteínas musculares. O treino combinado oferece muitos dos benefícios do treino aeróbio e de força muscular, embora a intensidade destas componentes seja inferior quando comparada com o treino intervalado de alta intensidade ou programas convencionais de treino de força muscular.
O exercício pode de facto ajudar os idosos a reverter certos aspetos do processo de envelhecimento celular. Num estudo publicado este ano, Robinson MM et al. reportaram os efeitos de 12 semanas da prática de 3 regimes distintos de exercício nas adaptações do músculo esquelético em adultos jovens (18-30 anos) e idosos (65-80), explicadas com base em alterações no transcriptoma, na regulação translacional e no conteúdo proteico:
- Treino Intervalado de Elevada Intensidade: 3 d.sem-1 de bicicleta (4 x 4’ @ >90% VO2 pico + 3’ @ sem carga) + 2 d.sem-1 andar na passadeira (45’ @ 70% VO2 pico).
- Treino de Força Muscular: Exercícios para o trem superior e inferior (4 x 8–12 repetições) x 2 d.sem-1.
- Treino Combinado: 5 d.sem-1 de bicicleta (30’ @ 70% VO2 pico) + 4 d.wk-1 de levantamento de pesos com menos repetições que o protocolo do Treino de Força Muscular.
Seguidamente, os investigadores da Divisão de Endocrinologia, Diabetes e Nutrição, da Mayo Clinic nos EUA, fizeram biópsias do músculo vasto lateral dos participantes e compararam a composição molecular das suas células musculares com amostras de voluntários sedentários. Os investigadores também avaliaram a quantidade de massa muscular e a sensibilidade à insulina.
Eles verificaram que, embora o treino de força seja efetivo no desenvolvimento da massa muscular, o treino intervalado de elevada intensidade produziu os maiores benefícios a nível celular. Os participantes mais jovens no grupo de treino intervalado de elevada intensidade registaram um aumento de 49% na capacidade mitocondrial, e os idosos registaram um aumento ainda mais dramático: 69%. O treino intervalado de elevada intensidade também melhorou a sensibilidade à insulina dos participantes, o que indica uma menor probabilidade de desenvolver diabetes. No entanto, este regime de treino foi menos efetivo no desenvolvimento da força muscular, que normalmente diminui com o envelhecimento.
À medida que envelhecemos, a capacidade de produção de energia das mitocôndrias diminui. Comparando dados de conteúdo proteico e de sequenciamento de RNA dos participantes em diferentes regimes de exercício, os investigadores encontraram evidência de que o exercício estimula a célula a fazer mais cópias de RNA de genes que codificam proteínas mitocondriais e proteínas responsáveis pelo crescimento muscular. O exercício também pareceu aumentar a capacidade de produção de proteínas mitocondriais pelos ribossomas. A descoberta mais impressionante foi o aumento do conteúdo proteico muscular. Em alguns casos, o regime treino intervalado de elevada intensidade pareceu reverter o declínio associado à idade na função mitocondrial e nas proteínas essenciais para a construção muscular.
São dados substanciais de ciência básica que apoiam a ideia de que o exercício físico é vital na prevenção ou retardamento do envelhecimento. Talvez tenhamos mesmo descoberto a "Fonte Celular da Juventude". Mas…não guardem segredo!
Formação Clínica das Conchas - Falou-nos há instantes de um estudo com tanto de interessante como de recente, mostrando que o exercício consegue reverter certos aspetos do envelhecimento celular. Qual a sua contribuição científica mais recente na 3ª idade?
Xavier Melo - O grupo de investigação de Exercício e Regulação Cardiovascular do CIPER, FMH-UL, do qual faço parte, publicou em outubro de 2017 um artigo no Applied Physiology Nutrition and Metabolism, medindo o dispêndio energético de doentes coronários (62.6 ± 8.5 anos) que participaram numa sessão de treino combinado (75’) da fase de manutenção de um programa de reabilitação cardíaca. Nesta sessão, introduzimos uma atividade recreativa (jogo) como parte integrante da aula, caracterizada naturalmente pela novidade, entusiasmo e desafio.
Embora exista um claro argumento para que doentes cardíacos sejam encorajados a aumentar sua atividade física, como consegui-lo mantém-se um desafio. O dispêndio energético das sessões de reabilitação cardíaca é um tema negligenciado, deixando uma lacuna na medição precisa dos benefícios fisiológicos e no conhecimento de melhores práticas ao prescrever os vários regimes e programas para estes doentes. Pode causar espanto, mas os protocolos atuais de exercício na reabilitação cardíaca foram desenvolvidos ainda na década de 1970, quando era comum o descondicionamento profundo após longas hospitalizações. O fenótipo atual dos doentes na reabilitação cardíaca mudou à medida que a prevalência de obesidade aumentou e o tempo de hospitalização diminuiu. No entanto, as sessões de exercício permaneceram praticamente inalteradas, mesmo que o foco se tenha deslocado para a redução dos fatores de risco para a doença coronária. De uma forma geral, as sessões de exercício resultam em perdas mínimas de peso, em parte devido ao baixo dispêndio energético atingido. Portanto, há necessidade de desenvolver novas abordagens efetivas no dispêndio energético. Foi exatamente isso que fizemos.
A parte principal da sessão de exercício de treino combinado foi constituída por 3 partes:
- Circuito aeróbio: 2 x 15’ @ 60-70% HRR + 3´pausa ativa
- Treino de Força Muscular: 2 x 8-12 RM @ 50-60% 1RM (6 trem superior + 2 trem inferior) + 2x 20 rep abdominais + 2 x 20 rep lombares
- Atividade Recreativa: futebol, basquetebol ou vólei
O dispêndio energético médio total foi de 457.5 ± 80.3 kcal (4.9 ± 1.0 METs). Assumindo a frequência de 3 d.sem-1 durante 75’, estes doentes completarão 14.7 ± 3.0 METs h.sem-1, que está dentro da faixa de 13-26 METs h.sem-1 de atividade física aeróbia recomendada, e que deverá resultar na diminuição da adiposidade total e abdominal, e na melhoria da função metabólica.
A grande fatia do dispêndio energético da atividade [dispêndio energético total – (dispêndio energético em repouso + efeito termogénico da comida)] veio do circuito aeróbio (34.4 ± 6.4%, 6.9 ± 1.8 METs), mas 25.0 ± 5.3% (3.9 ± 1.0 METs) derivaram da atividade recreativa. Este dado é notável. O desafio e a diversão em forma de trabalho em equipe devem ser encorajados nos programas de reabilitação cardíaca, com regras alteradas para maximizar o sucesso dos participantes. Esta abordagem é distinta dos programas convencionais de reabilitação cardíaca, uma vez que as atividades recreativas são caracterizadas pela novidade, emoção e desafio, com um forte potencial para influenciar positivamente a perceção e a motivação para comportamentos de saúde, e podem ainda conduzir a uma maior retenção.
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