Uma dieta contendo grande quantidade de alimentos processados com muito açúcar, gordura e sal pode fazer mais do que aumentar o risco de sobrepeso, obesidade, diabetes tipo 2 e doença cardíaca, advertem os pesquisadores.
 
 
Alimentos muito processados, como produtos embalados cozidos, sopas instantâneas, carnes reconstituídas, pratos congelados, pacotes de biscoitos e outros produtos para lanches também contêm substâncias que podem aumentar significativamente o risco global de cancro e de cancro de mama, de acordo com Mathilde Touvier e colaboradores, do Center of Research in Epidemiology and Statistics Sorbonne (CRESS) Paris Cité em Paris (França).
 
A equipa apresenta os resultados de um estudo prospetivo com mais de 100.000 participantes da coorte NutriNet-Santé  em 14 de fevereiro no periódico BMJ.
 
Os pesquisadores descobriram que um aumento de 10% na proporção de alimentos ultraprocessados na alimentação foi associado a um aumento de 11% do risco de geral cancro (hazard ratio, HR, de 1,12; P < 0,001). Estes alimentos incluíram as gorduras e os molhos ultraprocessados (P = 0,002), bem como produtos (P = 0,03) e bebidas (P = 0,005) açucarados.
 
"Se confirmados em outras populações e situações, estes resultados sugerem que o rápido aumento do consumo de alimentos ultraprocessados pode levar ao aumento dos casos de cancro nas próximas décadas", alertam os autores.
 
 “O consumo cada vez maior de alimentos ultraprocessados pode causar o aumento dos casos de cancro nas próximas décadas”, alertam Mathilde Touvier e colaboradores   
Os pesquisadores também observam que muitas pessoas em todo o mundo estão a comer alimentos altamente processados. Pesquisas anteriores avaliando a ingestão alimentar individual na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Nova Zelândia e no Brasil indicam que até 50% da ingestão de energia diária total das pessoas que vivem em países desenvolvidos vêm de alimentos e produtos alimentares muito processados.
 
 
Aumento do risco de cancro de mama
 
O estudo também revelou que o consumo de alimentos ultraprocessados foi associado ao aumento de 12% do risco de cancro de mama (HR = 1,11; P = 0,02). Esses produtos abrangem os que contêm grande quantidade de açúcar (P = 0,006).
 
Não houve associação significativa entre o consumo de alimentos muito processados e o aumento do risco de cancro colorretal ou de próstata.
 
Também não houve associação significativa entre o consumo de alimentos menos processados e o risco de cancro. Estes alimentos foram os vegetais enlatados, os queijos e o pão fresco, sem embalagem.
 
Por outro lado, o estudo mostrou que uma dieta contendo principalmente alimentos frescos ou minimamente processados, como frutas, vegetais, legumes, arroz, massas, ovos, carne, peixe e leite, foi associada a redução do risco de cancro em geral e do cancro de mama.
 
"Estes resultados mantiveram-se estatisticamente significativos após o ajuste por vários marcadores da qualidade nutricional da dieta (ingestão de lipídios, de sódio e de carboidratos e/ou um padrão ocidental derivado pela análise dos principais componentes)", escreveram os autores do estudo.
 
 
Esses resultados devem ser interpretados com cautela
 
Como este é um estudo observacional, não podem ser tiradas conclusões sólidas sobre relações de causalidade, disse Mathilde ao Medscape.
 
"Não precisamos ser demasiadamente alarmistas. É preciso ter ponderação nesta fase. Estes resultados precisam ser confirmados por outras coortes prospetivas, sendo necessária uma investigação mais profunda dos mecanismos envolvidos".
 
No editorial que acompanha o estudo, Adriana Monge e o Dr. Martin Lajous, do Instituto Nacional de Salud Pública na Cidade do México, e da Harvard TH Chan School of Public Health, em Boston, Massachusetts, consideraram os resultados "interessantes", mas advertiram que eles devem ser interpretados com precaução.
 
É necessário muito mais trabalho para obter as evidências epidemiológicas que poderiam moldar a política pública ou levar ao desenvolvimento de recomendações práticas, dizem os editorialistas.
 
"Estamos longe de compreender as implicações do processamento de alimentos para a saúde e o bem-estar", escreveram Adriana e o Dr. Lajous.
 
"As novas realidades da oferta global de alimentos, e as limitações inerentes aos estudos epidemiológicos exigem mais ciência básica, incluindo dados de animais, a fim de informar novas pesquisas sobre o efeito do processamento dos alimentos para os seres humanos. Deve-se ter atenção para transmitir os pontos fortes e as limitações desta última análise ao público em geral, e aprofundar o conhecimento do público sobre a complexidade associada à pesquisa nutricional em populações nas suas vidas quotidianas".
 
 
Calorias vazias, má nutrição
 
Alimentos processados costumam ser caracterizados como fontes de calorias vazias e má nutrição, com poucas vitaminas e nenhuma fibra, destacam Mathilde e colaboradores. 
 
Alimentos muito processados podem conter aditivos e conservantes que melhoram o sabor e prolongam a vida útil do produto.
 
Estudos experimentais sugerem que as substâncias geradas durante a produção, o processamento e o armazenamento dos produtos alimentares processados podem ter propriedades cancerígenas. Por exemplo, contaminantes, como a acrilamida, podem ser produzidos durante o processamento pelo calor de batatas fritas, biscoitos, pão ou café, dizem os autores do estudo.
 
"Uma recente metanálise encontrou uma discreta associação entre a acrilamida na dieta e o risco de cancro renal e endometrial em não-fumantes", escrevem os autores.
 
A acrilamida é considerada "provável carcinógeno humano pela International Agency for Research on Cancer e pelo National Toxicology Program, conforme publicado anteriormente pelo Medscape.
 
 
Detalhes do estudo
 
Para o estudo a equipa usou dados da coorte em andamento NutriNet-Sant é, feita pela internet. Desde maio de 2009 as pessoas da população geral na França participam de um estudo sobre a associação entre a alimentação e a saúde.
 
O estudo conta com 104.980 participantes (média de idade de 43 anos) sem diagnóstico de cancro ao início do estudo. Os participantes foram recrutados de 2009 a 2017; 78% são mulheres.
 
No momento da inclusão, os participantes preencheram cinco questionários on-line, inclusive um sobre a ingestão alimentar. A cada seis meses, 24 horas de registros de alimentos foram aleatoriamente designados para rastrear o consumo de 3.300 itens alimentares diferentes pelos participantes em um período de duas semanas. Os alimentos foram classificados com base em "natureza, extensão e finalidade do processamento industrial".
 
Os itens alimentares foram massas, pães e bolos empacotados, lanches doces ou salgados embalados, produtos de confeitaria e sobremesas embalados, refrigerantes, bebidas adoçadas, almôndegas, nuggets de aves e peixes, e outros produtos à base de carne reconstituída, utilizando outros conservantes sem ser o sal, como os nitritos. Macarrão e sopas instantâneos, refeições preparadas congeladas e produtos alimentares contendo principalmente açúcar, óleos e gorduras ou óleos hidrogenados, amidos modificados, e partes de proteínas, também estavam incluídos.
 
Os alimentos ultraprocessados como sopas desidratadas, carnes processadas, biscoitos e molhos têm alto teor de sal, observam os pesquisadores. As conservas com sal estão associadas ao aumento do risco de cancro gástrico, acrescentam.
 
Um conhecimento mais aprofundado dos efeitos do processamento dos alimentos poderia levar a políticas destinadas à reformulação dos produtos, à tributação e a restrições à comercialização de produtos ultraprocessados, sugerem os pesquisadores. O Brasil e a França têm recomendado limitar a quantidade de alimentos ultraprocessados na alimentação em favor de alimentos crus ou minimamente processados, observam os autores.
 
Mais pesquisas epidemiológicas e experimentais são necessárias para entender melhor o efeito relativo da composição nutricional, dos aditivos alimentares, do contato com materiais e outros contaminantes, disse Mathilde. Os próximos passos para a equipa de pesquisa alimentar epidemiológica dela compreendem a análise das informações nutricionais detalhadas sobre os nomes comerciais e as marcas dos alimentos a partir dos dados da coorte NutriNet-Sant é. Isso incidirá sobre o impacto da exposição prolongada aos aditivos alimentares, a substâncias específicas e a exposição a vários aditivos.
 
"A maioria dos aditivos autorizados provavelmente é segura, mas vários aditivos têm levantado alguns temores em modelos animais e merecem investigação em estudos observacionais com humanos", explicou Mathilde.
 
"A questão é o efeito coquetel de todos estes aditivos consumidos juntos."
 
 
Reações às notícias
 
Esta pesquisa tem sido amplamente divulgada na comunicação social em geral no Reino Unido, e tem havido várias reações aos resultados.
 
Cientistas que não participaram do estudo postaram comentários no Science Media Center.
 
Ian Johnson, PhD, pesquisador de nutrição e fellow emérito do Quadram Institute Bioscience, em Norwich (Reino Unido), disse: "Este é um grande estudo observacional com métodos cuidadosos e rigorosos de coleta de dados. Os autores identificaram algumas associações bastante tênues, de pouco significado estatístico, entre alguns tipos de cancro e a alimentação. 
 
O problema é que a definição de alimentos ultraprocessados utilizada é tão ampla e mal definida que é impossível decidir exatamente quais, se houver alguma, conexões causais foram observadas".
 
Tom Sanders, PhD e professor emérito de nutrição e dietética, do Kings College London, disse: "A abordagem de categorização dos padrões alimentares que dependem de alimentos processados industrialmente em relação ao risco da doença é nova, mas provavelmente precisa ser lapidada antes que possa ser traduzida em orientações nutricionais práticas".
 
"A expressão alimentos ultraprocessados é difícil de definir em termos de qualidade dos alimentos, e não é amplamente utilizada pelos cientistas nutricionais", observou Sanders.
 
"Este estudo parece se concentrar na demonstração de que os alimentos processados industrialmente aumentam o risco de cancro. Os alimentos ultraprocessados se concentram em alimentos como macarrão instantâneo, cereais matinais, pães processados industrialmente, pizzas, bolos, batatas fritas, sobremesas prontas, almôndegas e nuggets de frango, doces e refrigerantes, incluindo os adoçados artificialmente. No entanto, a definição exclui muitos alimentos caseiros ou artesanais, tais como pão, bolos, biscoitos, manteiga, carne, queijo, conservas de fruta e legumes, bem como açúcar e sal usado no preparo doméstico da alimentação. Do ponto de vista nutricional, esta classificação parece arbitrária e baseada na premissa de que os alimentos produzidos industrialmente têm uma composição nutricional e química diferente da que é produzida em casa ou por artesãos. Não é o caso".
 
Além disso, existem os fatores de confusão, adverte Sanders. "O que as pessoas comem é uma expressão do estilo de vida delas em geral, e não pode ser ligado de modo causal ao risco de cancro. Para isso, é necessário excluir os chamados fatores de confusão – as coisas que reconhecidamente causam cancro, como tabagismo, obesidade, consumo de bebidas alcoólicas e pequena ingestão de frutas e legumes, como observa o editorial que acompanha o estudo. Os autores tentaram fazer isso com alguns ajustes estatísticos, que não pareceram alterar os resultados. No entanto, os que apresentavam alto consumo de fato diferiram em vários aspetos que podem ter contribuído para o risco associado à ingestão de alimentos ultraprocessados. Por exemplo, os participantes que consumiam uma grande quantidade destes alimentos ultraprocessados (33,3%) em comparação com os que consumiam muito pouco (cerca de 18,7%) eram mais propensos a serem fumantes ativos (20,2% vs. 16,9%), a não fazer atividades físicas (24,7 vs. 20,9%), e as mulheres mais propensas a tomar contraceptivos orais (30,8% vs.22,0%)".
 
O jornal britânico The Guardian publicou o seguinte comentário de um porta-voz da Food and Drink Federation: "Os alimentos processados não deve ser demoninados – trabalhando estreitamente com os nossos parceiros em toda a cadeia de produção alimentar, podemos usar o processamento de forma positiva para assegurar que todos os setores da sociedade tenham acesso a alimentos seguros a preços acessíveis".
 
Além disso, o Guardian publicou o seguinte comentário de Tam Fry, porta-voz do National Obesity Forum: "Muitas pesquisas têm limitações, e os cientistas aqui são suficientemente honestos para reconhecer que a pesquisa deles precisa de mais trabalho para ser conclusiva. 
 
Mas onde há fumo, há fogo: devemos prestar atenção aos receios deles – e ler os rótulos dos alimentos com mais atenção. Uma quantidade enorme de comida processada do dia a dia tem níveis excessivos de açúcar, gordura e sal embutidos, e tudo está listado na embalagem".
 
Outra matéria da CNBC destacou os nuggets de frango e o cancro na manchete, mas também trazia os seguintes comentários de Linda Bauld, PhD, especialista em prevenção do cancro Research UK: "As pessoas não devem se preocupar em comer um pouco de alimentos processados de vez em quando por causa deste estudo. Há boas evidências de que a baixa ingestão de frutas, verduras e fibras e o excesso de processados e de carne vermelha na alimentação possam contribuir para alguns tipos de cancro".
 
"Ter uma dieta equilibrada, evitar junk food e manter um peso saudável são coisas que podemos fazer para ajudar a melhorar as probabilidades a nosso favor", acrescentou.
 
Esse estudo foi financiado por: Ministère de la Santé, Institut de Veille Sanitaire, Institut National de la Prévention et de l´Education pour la Santé, Région Ile-de-France, Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale, Institut National de la Recherche Agronomique, Conservatoire National des Arts et Métiers e pela Université de Paris. Mathilde Touvier e coautores declararam não possuir relações financeiras relevantes. Martin LaJous revelou ter relações financeiras com AstraZeneca.
 
BMJ. Publicado em 14 de fevereiro de 2018. Artigo, Editorial
 
 
Fonte: Medscape
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